Odense 2015 – Visões

Em jeito de balanço dos últimos Mundiais, decidimos recolher as opiniões de pessoas que viram a prova do lado de fora, com várias visões: treinador, fã, ginasta, etc…

Desde já agradecemos o contributo de todos, principalmente de quem nos acompanha online e ao vivo. Naturalmente pretendemos continuar a acompanhar estas provas da forma mais próxima possível.

Fábio Castanho (atualmente juíz internacional, treinador e ex-ginasta da seleção nacional)
“Titulo: Qual é o nome do 4º Chinês?
Pela primeira vez vi um chinês a ir em 2º para a final individual de trampolim masculino, pela 1ª vez vi a equipa chinesa perder um titulo por equipas em Trampolim Masculino e Tumbling Masculino.
Pela primeira vez vi um quadruplo no DMT.
Pela 1ª vez o Zhalomin não falhou, faz DIDOL Plus (nunca visto até agora em prova) e mesmo assim não ganha.
Pela primeira vez o 4º Chinês vai à final masculina de trampolim, é melhor que 95% de todos os participantes e mesmo assim quase ninguém sabe o nome dele.”

IMG_5590_markedRita Arrais (atualmente juíz nacional, ex-ginasta e treinadora em estágio)
“Mais um campeonato do mundo se passou. Mais umas preliminares, mais umas semi-finais, mais umas finais…
Todos os anos nesta prova vemos o que mudou de um ano para o outro. Os ginastas que acabaram por não vir e os que de novo apareceram. Os ginasta que perdem os títulos e os que os passam a ganhar. As séries novas, os saltos novos, os records novos…
Mas há algo que não muda, que nunca muda, a excitação, a alegria, a tristeza… As unhas roídas nas bancadas, no recinto, nos aquecimentos. Os nervos à flor da pele de quem faz e de quem vê num desespero histérico para que nada falhe. Os rituais de preparação, as contas feitas a todas as notas, as lágrimas impossíveis de conter ora pela tristeza de um sonho que falhou naqueles curtos segundos (quem sabia que um segundo poderia ser assim tão curto?) ou de uma alegria incontrolável quando todo o esforço, toda a dor, todos os sacrifícios são finalmente recompensados.
A emoção de quem vê a sua bandeira hasteada e o seu hino cantado.
E é isto. É por isto que vimos. É isto que nos faz atravessar mares e continentes. Passar os nossos dias em cadeiras desconfortáveis ao frio e ao calor.
É por isto que vale a pena. E será por isto que voltaremos.”

Mariana Borges (atualmente ginasta e treinadora)
“Gosto sempre de assistir a uma prova desta magnitude, no entanto este ano em relação à organização achei muito interessante os videos de entretenimento que passaram nos ecrãs a explicar diversos aspetos sobre a modalidade, nomeadamente o processo de apuramento para os jogos olímpicos. Outro aspeto que achei bastante positivo foi o fato de pela primeira vez, na minha experiência como espetador, ser permitido filmar e tirar fotografias na bancada.
Em relação à prova em si, achei que o nível está cada vez mais a aumentar, principalmente no DMT masculino que foi na minha opinião a competição mais emocionante.
Este ano a nossa seleção teve uma maré de azar, tenho pena que não tenha corrido melhor, pois sei que temos muitos bons ginastas, cheios de talento que poderiam alcançar melhores classificações neste mundiais.”

Ruben Esteves (Ex-ginasta e treinador)
“Espetacular, organizado, nervosismo, boa disposição, apoio…enfim, são algumas das palavras que utilizo para caracterizar o tempo passado em Odense.
De uma forma geral, penso que fizemos os possíveis e impossíveis para demonstrar todo o apoio e vontade de vencer aos nossos GRANDES atletas.
Quanto ao decorrer da prova especificamente, não querendo focar quaisquer resultados, o envolvimento providenciado pela organização foi unicamente BRUTAL. Speakers fantásticos, staff simpáticos e café caro…ehehehe!
O trajeto evolutivo em que decorre a modalidade é de certa forma impressionante…de ano para ano o aparecimento de um novo MALUCO é quase certo, influenciando, positivamente, o reconhecimento dos Trampolins perante as restantes modalidades gímnicas.
Relativamente ao Trampolim Individual, mais do mesmo, TOF TOF TOF e mais TOF…apresentando desta vez, na minha opinião, uma junção puramente sincronizada com a execução. O Duplo Mini, não tem palavras (é aqui em que os MALUCOS ou KAMIKAZES têm mais tendência para aparecer)…a partir do momento em que alguém realiza num único elemento 5 piruetas ou 4 mortais…ESTÁ TUDO DITO.
Resta acrescentar, que o trabalho continua, sempre na tentativa de potenciar uma página inesquecivel na história desportiva de Portugal.
Por fim, ao grande Tiago Sousa…É A PRIMEIRA DE MUITAS.

Carlos Nobre (Campeão do Mundo de DMT por equipas em 1994 e treinador)
“Foi sem dúvida uma competição emocionante e preenchida por sensações para recordar. Desta vez, acompanhei a prova do lado de fora, como espetador.
Para quem está habituado a permanecer próximo dos atletas e poder influenciar, positivamente, as suas “performances” foi sem dúvida difícil este “papel” que me esteve reservado. Em termos gerais é notória a evolução nas várias especialidades. No trampolim é evidente a importância crescente do tempo de vôo (TOF) e impressionante a quantidade e qualidade de elementos técnicos de grande dificuldade que são realizados à máxima altura. O tumbling mostra-se cada vez mais emocionante e capaz de nos levantar da cadeira em cada passagem. Em relação ao DMT, as finais deixaram-nos a vibrar com a quantidade de “skills” impressionantes que os atletas conseguem fazer. Toda a energia e velocidade passa para a bancada. É verdadeiramente emocionante e contagiante a sua espetacularidade. Ainda não alcancei porque razão esta especialidade não é olímpica.
Em relação à participação portuguesa tenho duas leituras que gostaria de partilhar com todos. Por um lado, temos a especialidade olímpica, trampolim individual, que se encontra bem representada pelos nossos atletas, respira saúde e deixa-nos confiantes em relação a um futuro próximo. Num país com a dimensão de Portugal é visível o talento, comparável com as grandes potencias mundiais, só assim se compreende que tenhamos 3 representantes no Teste Event para o Rio 2016, numa modalidade em que só estarão representados os 16 melhores ginastas do mundo.
No trampolim sincronizado a nossa presença foi tímida e um pouco abaixo do que todos estávamos à espera e daquilo que os ginastas sabiam que poderiam alcançar.
No entanto, é no DMT que senti mais nostalgia, tristeza e alguma resignação no que fui acompanhando. A nossa prestação foi tímida e inferior ao talento e capacidade dos nossos bravos representantes. Não tenho dúvida que temos potencial e capacidade para melhor, recordo que no escalão masculino estivemos representados por atletas que já têm medalhas importantes e recordações únicas, ímpares e singulares no nosso álbum de memórias. Relembro que Portugal tem pelo menos 6 medalhas de ouro no escalão máximo em edições anteriores, aspeto que nos deve deixar cheios de orgulho e confiantes na nossa capacidade como povo.
No meu entender esta situação era previsível! Por vezes algumas medidas e decisões manifestam-se mais tarde e já há sinais disso. Porquê? Porque não há dinheiro? Porque não é Olímpico?
Não será por falta de dinheiro, certamente. Tenho a sensação que o trajeto que foi sendo construído durante muitos anos nas especialidades de tumbling e DMT se venha a perder por falta de empatia, carinho, preocupação e acompanhamento dos nossos, ainda, atletas. Os nossos ginastas sentem que fazem um investimento brutal na sua formação e depois não têm os momentos e condições ideais de preparação para “lutar” com os outros países! Só os pode deixar desmotivados! Enfim, no meu papel de “Ourives” tentarei lapidar mais “diamantes” que tentarei “facetar” de acordo com os desígnios de uns e os caprichos de outros, no fundo para que o nosso passado e tudo o que fomos construindo não caia em esquecimento.”

Tiago Sousa (ex-ginasta de Tumbling e preparador físico de ginastas olímpicos, entre outros)
“Poucas palavras existem para descrever tantas emoções que foi esta aventura na Dinamarca para ver e fazer parte do campeonato do Mundo de ginástica de trampolins. Foi com muito nervosismo que cheguei ao aeroporto de Lisboa, não sabendo como tudo ia correr. O frio, as dificuldades que poderiam surgir…mas rapidamente se dissipou, com o encontro de toda a grande “comitiva” Trawp, pronta a apoiar todos os nossos ginastas, mas também uns aos outros. Comitiva essa cheia de pessoas muito especiais para mim, umas com quem convivo todos os dias, outras dos tempos em que saltava e novas grandes amizades, impossível ficar indiferente a como tudo correu e a entreajuda que existiu e existe sempre entre o “pessoal da ginástica”, melhor companhia para tal aventura não era possível.
Destacar também a grande organização do João Marques, que tratou de tudo, para que tanto a viagem como a estadia corressem sem qualquer percalço ou preocupação. No decorrer destes 6 dias de campeonato muita coisa se passou, a maioria boas algumas menos boas. Em termos de organização, pouco tenho a dizer, tirando a parte que o único elevador para as bancadas era através da zona Vip, o que fazia com que pessoas sem credencial não pudessem passar, o que criou algumas dificuldades para pessoas em cadeira de rodas, assim como eu. Mas com um pouco de bom senso e alguns puxões de orelhas, tudo se resolveu. Tudo o resto 5 estrelas, assim como o local onde se realizou a prova.
A intensidade que se fez sentir nestes dias, durante as qualificações e principalmente nas finais, foram de outro mundo e para quem nunca tinha estado numa competição deste tamanho a única palavra que me surge é ESPETACULAR.
Em relação aos nossos ginastas, foi tao bom finalmente estar perto de todos neste momento de tão grande importância. O destaque vai para todos, pois sei que deram tudo e mais alguma coisa, depois de tantas horas de trabalho e sacrifício, são todos os verdadeiros campeões. O nível de competição estava muito alto e apesar de algumas coisas poderem ter corrido melhor, seja por uma pontinha de “sorte” por outras situações ou mesmo porque no mundo da ginástica e o nossos atletas assim o são, de querer sempre mais e o melhor, conseguiram alcançar muitos dos principais objetivos.
Como preparador físico, como amigo e grande apreciador de ginástica, as emoções estiveram sempre ao rubro, vivo muito através deles todos. É algo difícil de explicar por palavras, mas quando saltam sinto que estou lá, a felicidade quando corre bem a tristeza quando não corre como esperado é vivido com uma intensidade tremenda.
Só posso dizer que tenho um orgulho MUITO grande por todos e um maior privilégio fazer parte desta grande família. E vamos continuar a trabalhar cada vez mais, para os próximos grandes objetivos. E sem dúvida lá estaremos todos de novo para apoiar, vibrar e festejar!!!

PARABÉNS E OBRIGADO A TODOS!!!!!!

Tiago Sousa”

2 thoughts on “Odense 2015 – Visões

  1. Rneto says:

    O Fábio pergunta: – Quem é o 4º chinês?
    A propósito de nostalgia, eu pergunto:
    – Em 94 (1º campeonato do mundo que assisti, único sem ser na bancada, como ajudante de recinto / spotter) quem era o, suposto, 4º português que assegurou o título de campeão do mundo de DMT para Portugal. 🙂
    Carlos fazes uma alegoria no artigo. Eu também gosto delas. Por isso vou continuar a tua onde acho que há um erro, de pormenor.
    Quem dá o brilho às pedras indiferenciadas, a quem poucos sabem reconhecer o devido valor até adquirirem todo o seu brilho, é o lapidador.
    O ourives apenas usa o brilho dado pelo trabalho alheio dado à pedra pelo lapidador. Sendo tu lapidador e ourives, no presente contexto, o erro é aceitável 🙂 .
    Mas, este mesmo erro tem outras implicações quando ocorre em grandes eventos, quando toda a gente fixa a atenção e aprecia o brilho final das pedras preciosas e o entende como obra do ourives.
    Aqui é irrelevante que todos os envolvidos no processo saibam que o mérito é do lapidador.
    Assim é o ourives ou apenas quem assina as peças e as põe no seu portfolio que colhe os louros .
    Neste contexto, global, este entendimento faz toda a diferença. E se até o bater das asas duma borboleta muda tudo num futuro, imagine-se o voo contínuo de porcos (como o dos Pink Floyd) em eventos sucessivos .
    Mas, felizmente, no essencial, os trampolins, que gostamos e nos estão gravados na memória do corpo, nunca serão uma qualquer circunstância.
    Abraço!

  2. Marta Ferreira says:

    E eu, que devia ter deixado o meu testemunho desta grande aventura mas, que não tenho jeito para escrever, só posso dizer OBRIGADA.
    Obrigada pelos maravilhosos dias passados na companhia de toda a comitiva trawp, foi um imenso prazer ter vivido esta aventura com todos.
    Foi bom voltar a estar presente no GRANDE PALCO da minha vida, o MUNDO FANTÁSTICO DOS TRAMPOLINS.

    UM BEIJO PARA TODOS…😂

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